
O que está por trás da queda no fluxo e nas vendas dos shopping centers brasileiros.
Matéria publicada no último domingo, na Folha de São Paulo, mostra que fluxo e vendas estão em queda nos shopping centers brasileiros.
Utilizando dados oficiais da associação que representa os centros comerciais no país, a Folha comprova que a quantidade de visitas mensais caiu 6,2% e as vendas reais recuaram cerca de 25%, na comparação entre 2019 e 2025.
Foi o bastante para os arautos do apocalipse anunciarem, mais uma vez, o ocaso dos shopping centers.
Calma lá. Se a intenção é, de fato, entender o que acontece com o setor, precisamos analisar o cenário com mais profundidade.
Para começo de conversa, não estamos falando da fuga de consumidores avessos aos shopping centers e sim de uma redução na frequência das visitas. As pessoas seguem indo ao shopping, porém menos vezes ao mês. Por outro lado, estão ficando lá por mais tempo. A média de permanência no ano passado foi elevada, por volta de 80 minutos a cada ida.
A verdade é que todas as atividades em ambientes físicos disputam o tempo e a atenção das pessoas com o digital. A série maratonada no streaming, as horas que voam durante aquele joguinho viciante no celular, os longos papos no WhatsApp, tudo isso virou concorrente direto pelo tempo dos consumidores. Não é à toa que os shoppings estão investindo mais em serviços, gastronomia, entretenimento e eventos para enfrentar esse desafio.
Sobre a queda nas vendas, não dá para negar que o comércio online, o endividamento da população e o aumento no custo de vida, especialmente na alimentação, cobram um preço caro do varejo físico e, como consequência, dos shoppings.
Mas há um outro efeito que nem todos estão percebendo: o baixo crescimento nas vendas dos lojistas não é uniforme. Em outras palavras, o aumento de 1,2% registrado pela associação do setor entre 2024 e 2025 não reflete a realidade dos shoppings mais consolidados.
Vamos aos números?
Os dados oficiais mostram que as vendas nominais, sem descontar a inflação, subiram 4,2% nos centros comerciais brasileiros entre 2019 e 2025. Na Multiplan, entretanto, esse crescimento foi da ordem de 58%. Na Iguatemi superou 77%. A quantidade de shoppings nas duas redes variou pouco no período: ambas acrescentaram apenas um empreendimento ao portfolio.
No caso da ALLOS não é possível fazer a mesma comparação, já que a fusão entre Aliansce Sonae e brMalls aconteceu no início de 2023. Ainda assim, se considerarmos somente a evolução das vendas entre 2024 e 2025, veremos que, enquanto os 658 shoppings associados à Abrasce registraram aumento de 1,2%, os ativos da ALLOS venderam 5,1% a mais.
Note que não estamos incluindo nesta análise shoppings com desempenho extraordinário, nem boas redes de grande e médio porte que, por não serem empresas listadas, não divulgam suas vendas. Dá para afirmar, sem medo de errar, que o time dos que cresceram vendas de forma considerável nesse período não é pequeno.
Sabe o que isso significa? Que analisar o mercado como um todo, embora a metodologia esteja correta, pode levar a conclusões enviesadas. Redes mais estruturadas e shoppings dominantes puxam os números para cima. Empreendimentos bem posicionados e voltados ao público de maior poder aquisitivo sofrem menos. Malls com mix equilibrado e bons operadores destoam da média. Quem investiu em modernização do ambiente, marketing eficaz e qualificação do mix de lojas teve mais retorno.
Não admira que a carteira de administradoras especializadas na gestão de terceiros esteja engordando tão rápido. Quem não faz parte de uma rede sente mais a dureza nas negociações com os melhores lojistas, além das dificuldades para reduzir custos operacionais e gerar novas receitas. O sucesso no jogo, hoje, depende muito de escala e alcance.
Vale a pena lembrar do exemplo norte americano.
Em 2014 o fotógrafo conhecido pelo pseudônimo de Seph Lawless publicou um livro com imagens de shoppings abandonados nos Estados Unidos, disparando uma série de alertas de ‘especialistas’ sobre a decadência dos malls, que eles chamavam de dead malls (shoppings mortos, em português).
Não demorou muito para que algumas pessoas começassem a repercutir por aqui a pergunta: os shoppings vão morrer no Brasil também?
Pois bem. Agora a imprensa dos Estados Unidos está alardeando justamente o contrário: que as novas gerações redescobriram os shoppings, as delícias da socialização em um espaço seguro e o prazer das compras em lojas físicas.
Assim como aconteceu com a morte anunciada dos shoppings em 2014, o ‘renascimento’ dos centros comerciais em 2026, nos Estados Unidos, não afeta em nada o mercado brasileiro. Aqui a cultura e a história dos consumidores com shopping centers são diferentes.
Mas o alerta pode ser útil. Os shoppings não estão morrendo, nem aqui, nem lá. O setor está, sim, passando por uma profunda transformação, como tantos outros.
Cabe aos shopping centers pilotar essa transição com habilidade e olho nos novos comportamentos do consumidor. Porque, no fim das contas, o problema não é o shopping center. O problema é achar que dá para enfrentar um novo consumidor com um velho modelo de negócio.
